sábado, 22 de agosto de 2026

SOU APENAS UM CORPO QUE MORRE

Sou apenas um corpo
preso a um tempo
e a um espaço. 

Um corpo que diz silêncios,
que inventa afetos e memórias
fechado na fantasia
de sua pequena existência.

Um corpo que quase não sabe de si
entre tantos outros.
Um corpo classificado pela cor da pele, reduzido a estatística,
mão de obra barata e a uma conta no banco.

Um corpo que sente, 
que come, caga, fala
e morre preso a uma tempo
e a um espaço que o apaga e consome.









sexta-feira, 21 de agosto de 2026

DIA E AGONIA




A rotina morta 
anuncia o deserto
do novo dia.

O tempo é agonia,
o pensamento é  dor 
e o sentimento preguiça. 

A vida acontece
em outro lugar
muito longe 
daqui e agora.

Um lugar onde a rotina
não  é  morta
e o dia tem cheiro de jardim.




quarta-feira, 19 de agosto de 2026

IRRELEVÂNCIA E FINITUDE

Quase tudo que faço  é  descartável,
inútil e banal.
Quase tudo que penso, digo ou quero
é fútil.
Não  vejo, portanto, razão  para desejar eternidades quando tudo que me envolve é  materia digna de esquecimento. 
O fim é  o melhor destino de uma vida consagrada a colecionar insignificâncias. 
A morte é, no final das contas,  o que há  de mais justo na existência diante de nossa cotidiana irrelevância. 

sábado, 15 de agosto de 2026

PROVOCAÇÃO NIILISTA

Não  nos intimida o moralismo cristão,
as normativas do senhores da razão,
e pregações dos guardiões  da sagrada Verdade.

Nossa meta é a troça e a  diversão. 
Rimos de tudo que é sério,
do que é respeitável,
do que é  bom e belo.
Não reconhecemos a autoridate dos doutos,
dos governantes e dos legisladores.

A vida não  vale qualquer discussão
ou recomendação da boa razão.  
Afinal, o futuro é  a morte
e, um pouco mais adiante,
já se anuncia o merecido fim da civilização. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

EU ACREDITO NA RAIVA E NA LUTA

Eu acredito no desvio,
na fuga e na angustia.

Eu aposto no desespero
de quem não vê  saída
e ousa a recusa.

Eu acredito no tudo ou nada,
na força da rua que transborda
em raiva.

Sei que a dor,
a necessidade e a revolta,
é o que alimenta e inspira a luta.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SINGULARIDADE E FINITUDE


Tudo que é eterno é  medíocre, insignificante.
Pois é a morte  o que torna a vida interessante.

O que passa é  raro, singular e fecundo.
Tudo que morre é  sublime, tragico e único.

Maravilhosa é a fragilidade deste puro instante que sustenta, provisoriamente, 
a vida na incerteza do tempo e do espaço.

Dentro de mim tudo é distante.
Tudo é  outro neste corpo
que logo estará morto.



quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A MORTE MISTERIOSA

Havia uma morte oculta
no fundo da xícara de café.
Era uma morte sem objeto.
Ela não matava ninguém. 
Ainda assim era uma morte
dentro da vida de alguém.