quarta-feira, 11 de março de 2020

LUTO

Quando eu for morto,
Inteiramente ausente,
Mostre aos outros
A marca do meu eu
Em teu corpo.

Diga a todos
Que fui presente,
Um amante quase perfeito
Na arte de saber do eu e do outro.

Denuncie a tragédia do meu desaparecimento
E o absurdo da minha ausência.

domingo, 8 de março de 2020

MEU TEMPO

Meu tempo não acompanha o relógio, 
Não  segue o calendário,
Nem é  marcado pelos fatos abstratos
Que decoram o noticiário.

Meu tempo é meu corpo
Definhando nos anos.
Minha consciência do mundo
Confundida com minha presença entre as coisas.

Meu tempo é  espaço,
Movimento, 
Ato, palavra e fome.
É tudo aquilo me acontece
É morrerá comigo.



sexta-feira, 6 de março de 2020

ENGAJAMENTO NIILISTA


Contra toda moral,
contra qualquer tradição,
afronto os limites do tempo presente,
debocho de todas as verdades vigentes
na desvaloração radical das ilusões humanas
e da sua absurda razão.

Não me interessa o futuro,
o passado,
ou a grande babel literária dos eruditos.

A gramatica da liberdade
formata a gratuidade e o nada
como premissa de nossa risível existência
em todos os tempos do acaso e do caos  do universo
através do ridículo de nossa humana experiência.


quinta-feira, 5 de março de 2020

PONTO FINAL


Quando morrer,
espero que os religiosos estejam errados,
que eu não tenha que nascer de novo.

Não quero sofrer o trauma
de nenhuma outra vida,
a agonia de ser qualquer coisa
no ridículo carrossel da eternidade.


NASCIMENTO E MORTE


Minha vida inteira,
através de todas as suas descontinuidades
e contextos,
culmina no grito do inacabado,
no momento brusco de sua suspensão,
da morte como retirada do mundo,
como silêncio, interdição permanente
do ato e da palavra.
esta absoluta ausência do morrer
põe em xeque toda mítica
em torno do nosso nascimento.

domingo, 1 de março de 2020

MORTE E MEMÓRIA

Diferente do que dizem os religiosos, morrer não  é  nascer para uma vida eterna. A morte é  a perda da possibilidade de transformar-se,  é  a negação de toda mudança de si. Por isso lembrar os mortos nos deixa tristes. A lembrança é estática e estagnada, diz a impossibilidade do outro como constância  da novidade de existir. É isso que faz doer a ausência....

A MORTE É O AGORA



A morte vive sempre no agora
Através da agonia dos nossos atos.
Ela é sempre neste instante,
neste limite,
neste cansaço...
Ela nunca é depois.