terça-feira, 10 de maio de 2016

NOSTALGIA

Podia passar o resto da vida inerte
Enterrado no passado acordado
Por aquela antiga foto,
Naqueles ecos de infâncias que ainda
Me gritam por dentro.
Afinal, quem eu sou hoje?
O que resta do futuro,
Dos outros e dos meus sonhos?
Sou agora uma opaca versão
Dos meus melhores dias

querendo  o passado como um absurdo futuro.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O FANTASMA DA FINITUDE

 Morrer pode ser, antes de um fato, um processo psicológico  mais corriqueiro do que imaginamos. Pode ser mais evidente entre os idosos. Mas as vezes, prematuramente, nos surpreendemos diante do espectro da finitude. A existência  não  segue em linha reta. E a vida não  é  nada daquilo que nos ensinaram...

ENVELHECER

O corpo já não era o mesmo.
Contrariava com frequência minhas vontades
E, quase  sem perceber, fui deixando de lado
Algumas rotinas.
Meu corpo mudou tanto
Que já não sou mais capaz
De acompanhar a vida.
Muitos esperam mais juventude,
Procuram mascarar a idade.
Eu, ao contrario, me resigno
Ao peso dos anos,
A esta saudade de quem

Eu costumava ser. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

O PERVERSO DA FOTOGRAFIA

Não gosto de fotografias.
Elas nos lembram que o tempo passa,
Que a realidade é frágil
E tudo é perene.
Nos confrontam com o momento,
Com algo perdido
E reduzido a passado inútil.
Fotografias são perversos registros
De algum silêncio.


segunda-feira, 2 de maio de 2016

PENSE SEMPRE NA MORTE

As pessoas só  realmente percebem o quanto são  concretamente um corpo quando ficam doentes. Toda enfermidade nos revela muito sobre a existência  na medida em que nós confronta com a finitude e todas as suas consequências  existenciais.

E não  adianta acreditar em todas as bobagens sobre vida após  a morte quando a doença  é  grave. A vida tem graves limites. E, por mais que avance a Medicina, não  nos livrará  de um  fim certo e biológico. 

Morrer é  a única questão  pertinente no exercício cotidiano da vida.

MORTE E PALAVRA

Que a palavra me redima desta curta e decepcionante aventura que foi a existência.

No final ela é tudo que fica como uma pálida reminiscência de tudo aquilo que fui e que não pude ser. Através dela cristalizo meus limites, meus universos e sentimentos despudoradamente vomitados no espaço em branco dos pensamentos.

Sei que algo sempre faltará ao dizer, que dele jamais poderão ser deduzidas todas as consequências da minha vida.  Mas ela será o pouco que sobra da minha  quase invisível presença no mundo.


A palavra é, de certa  maneira, o testemunho do meu corpo.

UM DIA DEPOIS DO OUTRO

Um dia depois do outro
Fui me colocando à margem,
Me deixando abstrato e provisório
Frente ás exigências do dia a dia,
Os tumultos humanos e impasses cotidianos.

Tão sem sentido é o pouco dos fatos,
A vida que segue em improvisos,
Que me escrevo no finito e no mínimo
Do meu tempo intimo.
Não guardo mais

Qualquer expectativa.