sábado, 10 de agosto de 2019

ROTINA E AGONIA

Todos os dias acordo para esperar outro dia.
A rotina nivela o hoje ao amanhã,
Elimina a esperança em qualquer mudança.

Estamos todos mortos em nossas vidas  Mas finjo não saber disso e sigo sorrindo,
Sempre imaginando suicídios.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

APROVEITE SUA JUVENTUDE



Os velhos não tem futuro.
O passado lhes morde os calcanhares.
E o corpo já não sabe
A intensidade dos prazeres da carne.
Nem a mente aprende como antigamente
Ou a vista apreende toda a nitidez da paisgem.
Até o sabor do alimento é diferente.

Por tudo isso,
É preciso ser jovem para aproveitar a vida.
Depois de certa idade
Apenas existimos,
Cada vez com maior dificuldade.


TRÊS TEMPOS



O tempo do relógio é enfadonho.
Serve apenas a rotina do escritório.

O tempo da vida é o instante
Não tem medida
E nunca é o bastante.

Mas a vida sabe também
O tempo do esquecimento
E a hora da morte.


terça-feira, 6 de agosto de 2019

RETORNO


Espero que o tempo,
De algum modo,
Me faça voltar...

Quero reencontrar o lugar que deixei vazio
Naquela triste província onde vim ao mundo.

Sei que o tempo muda tudo,
Que nada será como antes,
Mas é aquele canto de fim de tudo
Que eu pertenço.

É lá que quero acabar.



APOSENTADORIA


Verei crescer a filha da vizinha,
Trocarei fotografias com parentes distantes,
E todos os dias, pela manhã,
Irei comprar pão na padaria da rua de baixo.

Viverei o suficiente
Para saber a vida sem ilusões,
Sem a opressão de qualquer opinião,
A margem de todos os julgamentos.

Irei saborear a paz do meu pequeno mundo caseiro,
sem sustos ou novidades,
Até que a morte me arranque dos dias.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

SOBRE A PREGUIÇA DE VIVER

Entre a leveza de viver e a gravidade de pensar, afirma -se a preguiça  de existir, de dizer, de fazer. 


Não há  qualquer beleza em persistir. Uma hora a vida termina. Tudo se reduz ao cotidiano espetáculo da banalidade, do anonimato.

Viver não passa do silêncio de um morrer diário.

Acumulamos esquecimentos e todos os nossos atos estão fadados ao nada. Por isso toda ação é efêmera e conduz ao triunfo da preguiça de existir. Mas isso é coisa que apenas o peso dos anos nos faz perceber.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

VIVER PARA O PASSADO

Não  vivo para o futuro. Existo para o passado. Ele define meu presente, minha presença  e desaparecimento da paisagem do mundo. 

Na memória cada instante é uma pequena eternidade que faz de mim acontecimento.

Sou composto pela descontinuidade de vivências impessoais singularmente organizadas em experiência e presença no mundo.