sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

O MAIS PROFUNDO DOS SONOS

Tenho vontade de dormir.
Dormir tão profundamente
que meu corpo desapareça.

Dormir e esquecer,
desfalecer,
não saber mais de mim,
dos outros e do mundo.

Afinal, tudo finda
e nem mesmo as lembranças
são eternas.

Não faz diferença viver ou morrer.
Melhor dormir
até que se apague de vez
o dia do meu nascimento.

Dormir para escapar da lei,
da ordem e das vontades que tanto me 
assujeitam
até que eu me surpreenda nada.

fotografia de Philiph Halsman

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O ABSOLUTO SILÊNCIO DA MORTE

Vejo a morte como um silêncio em estado bruto ou absoluto.
Diante dela é insuficiente falar sobre ausência,
pois ela é algo além da falta.

A morte está acima dos deuses, do cosmos e da natureza.
Ela não cabe nem mesmo no avesso do verso.

Nada que existe pode alcança-la,
mas tudo por ela é determinado.

A morte é a revelação da vida como um banal e pessoal fracasso existencial.



terça-feira, 10 de janeiro de 2023

FIM DE JOGO

Seu futuro  durará apenas algumas horas
e todo o seu passado, logo, não fará qualquer diferença.
Não nutra esperanças.
Já é tarde demais.
Não há nada a fazer.
Apenas beba mais um pouco antes de morrer.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

O ATEMPORAL DE UMA VIDA APAGADA

Tudo em mim é gasto, 
Passado e ultrapassado.

 Sou composto por arcaísmos e nostalgias. Não passo de uma sucata de gente 
Perdida no tempo e no espaço. 

 Digo adeus todo dia,
esperando ansiosamente 
pela hora da minha fatal despedida. 

 A banalidade de um final sereno
 é a grande realização de uma vida inteira. Afinal, não existe progresso 
nem sucesso 
no acontecimento
 de uma vida humana. 

 Não tenho tempo e não deixo vestígios. 
Estou preso a minha bolha pessoal 
de esquecimento.

OS VIVOS E A MORTE

Dizem que a morte é um sono sem fim,
sem sonho, sem corpo ou realidade. 
Pois eu acho que a morte existe apenas para os vivos, na medida que eles não sabem que já estão mortos e seguem iludidos por uma breve existência sem sentido.


DESAJUSTADO

Aprendi a suportar ausências,
sobreviver a perdas,
subtrações materiais,
e a incerteza de qualquer amanhã.

Mas confesso que não suporto
este tédio,
está falta de alma,
corrosiva inquietação 
ou urgência de destruição,
que me faz avesso
a prisão das rotinas
e a ditadura da significação 
que nos é imposta pela deusa razão.

domingo, 1 de janeiro de 2023

O TEMPO E A VIDA

O futuro dura todo tempo do mundo
contra um presente sempre incerto
e um passado que nos consome a existência
através dos dias.

Por isso pouco me importa o dia de hoje,
o amanhã sonhado
ou o que ontem se perdeu.

O tempo reduz tudo a nada.
Mas a vida não cabe no tempo.
Pois ela é menos que nada.