quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

OFUSCAÇÃO


Hoje acordei tão lúcido
Que me surpreendi meio morto,
Vivo e sem rumo.
Bebi um pouco de escuridão
E apaguei as ruas
Enquanto comia um pedaço de vento.
Depois esqueci do mundo

E me desfiz entre o ser e o não ser.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

ANTIQUÁRIO

Gosto de visitar antiquários e me perder entre todos aqueles moveis, quadros e outros objetos antigos. Sei que todos foram em algum momento arrancados de algum lugar que se desfez, de vidas que findaram.  Há neles rastros invisíveis de cotidianos e histórias perdidas de simples acontecer privado que escapam a memória dos sobreviventes.


Antiquários são como um cemitério de coisas perdidas que nos são oferecidas para decoração de nossas vidas. Assim, os objetos transcendem seus donos e originais contextos. Resistem a morte e ao tempo embora não passem de simples obras humanas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A MISÉRIA DA ETERNIDADE

Não sei se gostaria de viver minha própria vida  eternamente.
Cansa um pouco ser eu mesmo,
Estar preso a este rosto e destino
E saber as coisas  do meu incerto ponto de vista.
Isto cansa tanto quanto saber as pessoas
E participar dos diários tumultos da sociedade.
Abomino definitivamente a ideia de eternidade,
Reencarnação ou qualquer hipótese idiota
De perpetuação pós morte da existência.
Apenas os tolos egocêntricos tomam como desejável

Tamanho absurdo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

SOBRE TRAGEDIAS E LUTO

Diante de uma tragédia envolvendo a morte de centenas, o luto social revela não apenas a perplexidade que nos causa à fatalidade da morte, mas também nossa incapacidade de aceitar a fragilidade de nossa condição humana.

É contraditória a forma como socialmente lidamos com o luto coletivo, com a celebração da memoria daqueles que perdemos prematuramente  em acidentes.  No fundo não aceitamos uma premissa elementar da existência: viver é um fato aleatório que a qualquer momento pode findar sem qualquer razão. Uma simples coincidência desfavorável de eventos  pode ocasionar uma morte estupida. Estamos todos sujeitos a isso. Mas é saudável não pensar nisso e levar a vida como se sempre existisse um amanhã diante de nós. Ao mesmo tempo, entretanto,  também é importante relativizar nossas estratégias de existência traçadas a partir de uma perspectiva egoica e voltada para realização plena de nossas personas. De tanto vivermos em função de nossa adaptação a sociedade, muitas vezes abdicamos da experiência simples e gratuita de mergulharmos profundamente no superficial e raso de cada momento. 

INSIGNIFICÂNCIA

Uma vida é insuficiente para saber o mundo inteiro ou provar satisfatoriamente a existência.  Mas me contento com a pequena versão da realidade onde descansa minha consciência. Não pretendo mais do que este mísero instante. Viver, afinal, não é grande coisa. Por isso pouco me incomoda a morte. Não me importa realização pessoal e outros frívolos sucessos que nada acrescentam ao meu instante final.
Viver é nada...
Não cultivo a ilusão de qualquer valor.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O DESEJO E O TEMPO

As Interdições e limites do meu acontecer diário
Dizem o peso do tempo sobre os meus atos.
O corpo não acompanha mais o desejo,
Nem as certezas cabem mais no pensamento.

Vejo adiante apenas o passado
Na lenta desconstrução  de mim mesmo.

Minha vontade  não se reconhece mais no que faço,
Nem tenho medo de qualquer consequência.

Sou livre apenas através  do  desejo
Que ainda me inspira a consciência
Contra mim mesmo.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A MENTIRA DA VIDA

Passamos a existência tentando aprender a viver.
Até que tudo termina sem qualquer razão de ser.
Tudo que você considerava importante
Desaparece em um instante.
Tudo termina em silêncio
E não há nada a ser feito.
Não faz mais diferença quem você foi um dia.
Morrer é não ser,
viver é fingir que não sabemos
ou não nos importamos com isso.