A MORTE É UM DOS GRANDES TABUS DO IMAGINÁRIO OCIDENTAL.FATO QUE POR SI SÓ JUSTIFICA O ESFORÇO DESTE BLOG DE EXPLORAR SUAS REPRESENTAÇÕES COLETIVAS ECODIFICAÇÕES PESSOAIS...
Gosto de visitar antiquários e me
perder entre todos aqueles moveis, quadros e outros objetos antigos. Sei que
todos foram em algum momento arrancados de algum lugar que se desfez, de vidas
que findaram. Há neles rastros
invisíveis de cotidianos e histórias perdidas de simples acontecer privado que
escapam a memória dos sobreviventes.
Antiquários são como um cemitério
de coisas perdidas que nos são oferecidas para decoração de nossas vidas.
Assim, os objetos transcendem seus donos e originais contextos. Resistem a
morte e ao tempo embora não passem de simples obras humanas.
Diante de uma tragédia envolvendo
a morte de centenas, o luto social revela não apenas a perplexidade que nos
causa à fatalidade da morte, mas também nossa incapacidade de aceitar a
fragilidade de nossa condição humana.
É contraditória a forma como socialmente lidamos
com o luto coletivo, com a celebração da memoria daqueles que perdemos
prematuramente em acidentes. No fundo não aceitamos uma premissa elementar
da existência: viver é um fato aleatório que a qualquer momento pode findar sem
qualquer razão. Uma simples coincidência desfavorável de eventos pode ocasionar uma morte estupida. Estamos
todos sujeitos a isso. Mas é saudável não pensar nisso e levar a vida como se
sempre existisse um amanhã diante de nós. Ao mesmo tempo, entretanto, também é importante relativizar nossas estratégias
de existência traçadas a partir de uma perspectiva egoica e voltada para
realização plena de nossas personas. De tanto vivermos em função de nossa
adaptação a sociedade, muitas vezes abdicamos da experiência simples e gratuita
de mergulharmos profundamente no superficial e raso de cada momento.
Uma vida é insuficiente para
saber o mundo inteiro ou provar satisfatoriamente a existência. Mas me contento com a pequena versão da
realidade onde descansa minha consciência. Não pretendo mais do que este mísero
instante. Viver, afinal, não é grande coisa. Por isso pouco me incomoda a
morte. Não me importa realização pessoal e outros frívolos sucessos que nada
acrescentam ao meu instante final.
Viver é nada... Não cultivo a ilusão de qualquer valor.