quarta-feira, 9 de maio de 2018

VELÓRIO



Depois de hoje nada será de novo.
Foi-se um pouco da minha vida.
Carrego mais uma morte
Dentro daquela
Que cresce aos poucos
Dentro de mim.

Mas um desaparecimento,
Mais um silêncio...
E sei mais um pouco
A solidão do meu tempo.

Mas não há nada a fazer,
E é inútil sofrer.

Resta apenas o fado
De mais uma vez sobreviver aos outros,
Como se eu fosse o último.




segunda-feira, 7 de maio de 2018

INEXISTÊNCIA

Não mais existir é simples.
É pura ausência,
É desaparecer.
O que inquieta é esta ferida
Que define a existência
Como um momento
De nossa essencial inexistência.
Existir não vale o instante breve
No qual sabemos do mundo,
Onde nos embriagados de significados.

HABITAR PASSADOS

Aprendi a habitar o passado,
A frequentar os meus mortos.
Afinal, como é hoje presente
Tudo aquilo que foi!
Tenho muitos eis perdidos no tempo.
Eles me frequentam,
Me observam.
Fazem eu quase não saber
Quem eu ainda sou.
Não é nostalgia o que me tortura.
É simples ausência de mim mesmo.

O DESAFIO DO CORPO


Há sempre um certo desconforto em relação ao corpo. Podemos atribui-lo a experiência de sua perenidade e finitude. Experiência que socialmente procuramos negar no plano da cultura.  O dualismo metafisico mente e corpo, por exemplo, acaba por nos impor uma certa valorização de um “eu” abstrato e espiritualizado, diferenciado do corpo, como sendo uma fonte de significação da própria vida. Assim, diferente do corpo, cultivamos a pretensão a eternidade de um eu narcisista e prepotente. Mas, independente de toda representação possível, o corpo se impõe como lugar de acontecimento e mortalidade. Ele nos acontece independente das convicções. Morremos... não há nada que se possa fazer sobre isso.

Além disso, tendemos a considerar o corpo como uma coisa homogênea, como uma totalidade sistema, na sua condição de organismo vivo. Mas o corpo é mais do que isso. Ele é multiplicidade de órgãos, funções, moléculas sempre em relação a um meio ambiente, é uma dinâmica que se estabelece entre um dentro e um fora. Ele é feito de contradições, de interseções e diversidades que extrapolam qualquer dualismo simplista como mente e corpo ou  sujeito e objeto. Ele é um transito constante de substancias, de organismos e processos. Não é definido pela consciência, pela razão ou qualquer coisa que possa ser deduzida da fórmula homem.

Precisamos de novas ferramentas teóricas para traduzir o corpo como experiência, como um complexo campo de força integrado a um meio ambiente natural e culturalmente estabelecido.

O ERRO DA VIDA


Saber a vida é sempre um saber a morte.
Afinal, viver é um morrer constante.
Nenhum de nós é importante.

Somos apenas sombras do devir humano.
Ele nos transcende.
Por isso desaparecemos
Para que a vida sempre se renove,
Para que tudo seja
Em novos ensaios  de imperfeição.

Viver é um erro sem solução.



sábado, 5 de maio de 2018

SOBRE A PERDA DOS OUTROS

A saudade não responde a falta,
Não supera o vazio
Ou cala a angústia.
A morte é triste.
Mas não se diz aos vivos.
É sempre um segredo,
Onde anda mais é possível.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A VIDA NUNCA FOI

A vida nunca foi sobre mim,
Sobre nós
Ou, até mesmo, sobre a existência.
A vida sempre foi um grande silêncio,
Uma indiferença,
Um não ser das coisas
Através do tempo.

Tudo que é vivido
Tem por destino o esquecimento.
A vida nunca foi....