sexta-feira, 5 de abril de 2024

MORRER...

Talvez eu morra
ainda hoje 
afogado em tédio,
angústia e impotência,
a espera de algum fim do mundo.

Talvez, depois de um intenso 
 e quase eterno segundo,
de confusão e agonia,
eu caia de vez no fundo 
do meu vazio mais que profundo.

Morrer é se livrar de tudo.
Até de si mesmo.
É radicalmente desimportar-se.
É um desacontecinento,
um inacabamento,
ou um adiamento definitivo
de quem fomos.




quinta-feira, 4 de abril de 2024

FAMÍLIA MORTA


Hoje a família está morta,
a casa em ruínas
e a vida não é mais a mesma.

Tudo que foi pedra
virou pó e memória,
acabou em silêncio.

Ninguém se lembra
ou conhece
nossa pequena história.
Ninguém se importa.

O mundo segue em movimento.
Tudo gira na grande roda.
Tudo morre.
A família está morta.


sexta-feira, 29 de março de 2024

MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Foi-se tudo que sou.
A vida passou em um instante
e quase nada virou lembrança.
Simplesmente acabou.

Foi-se tudo...
Passados, futuros
e possibilidades.
O dia seguinte jamais chegou.

A vida simplesmente acabou
em ausência, silêncio e esquecimento.

Foi-se tudo do meu nada.
Meu corpo quebrado 
caiu do tempo e espaço.

Morrer é pra sempre.
Em tudo, por fim, me desfaço.

terça-feira, 19 de março de 2024

OS ANOS PASSAM

Os anos passam.
A vida se perde
enquanto nada acontece
e tudo se esquece.

Amanhã será outro dia
ou hoje de novo.
Não importa.
É sempre rotina.

De uma forma ou de outra
seremos na mesma agonia
consumidos pelo cansaço
de uma maldita e inútil mesmice.

Mas os anos passam
e a gente insiste,
persiste, 
sem nenhuma esperança.

Simplesmente, continuamos,
sem ficar alegre,
ou se deixar triste,
acumulando noites de insônia.

Os anos passam
e o tempo é nada.
Ninguém sonha.
O amanhã não importa
a quem só sobrevive
sofrendo um dia de cada vez.

Os anos passam.
A vida é outra
sem grandes mudanças.







sábado, 9 de março de 2024

A VITÓRIA DO ESQUECIMENTO


Quem lembra
há também de morrer.
E seu morrer 
alimenta silêncios
e o turvo sem fundo
de todo esquecimento.

A morte é 
dura, fria e absoluta.
Para ela nada importa.
 Nada é  digno de memória,
muito menos de melancolias.

Tudo que existe simplesmente morre
e morre de novo
com quem contra morte recorda
e protesta através da saudade.


sexta-feira, 8 de março de 2024

ÚLTIMO DIA

Todos os dias 
o mesmo vazio
através das coisas,
das pessoas e coercitividades
que sustentam a normalidade e o mundo.

Todos os dias o mesmo interdito, 
o mesmo silêncio maldito
entre humanismos e banalidades.

E vem sempre  de novo
 esta desesperada vontade de outra realidade!
Esta necessidade de evasão,
de estar em qualquer outra parte,
buscando a tranquilidade 
de um sereno  fim de tarde! 

Mas, quem sabe hoje,
 finalmente me surpreenda,
 antes mesmo de soar meio dia,
alguma boa e serena novidade;
qualquer morte que me despedace contra o nada,
que anule de vez todo meu tédio e realidade.

Talvez hoje seja, finalmente,
meu querido último dia.
Quem sabe?

A vida, afinal, não passa
de um lamentável  equívoco da matéria.
Um erro a ser corrigido.

Nosso fim nunca se anuncia,
mas constantemente se aproxima.